China ultrapassa 5 milhões de patentes — e mostra que propriedade intelectual é estratégia de poder
A marca de 5 milhões de patentes de invenção válidas alcançada pela China não é apenas um número impressionante — é um indicativo claro de uma estratégia de Estado consistente, de longo prazo e orientada à liderança tecnológica global.
O dado revela mais do que volume: mostra direcionamento. Ao concentrar esforços em áreas como tecnologia quântica, biofabricação, interfaces cérebro-computador e comunicações 6G, o país não está apenas inovando — está escolhendo onde quer liderar nas próximas décadas. Patente, nesse contexto, deixa de ser um instrumento defensivo e passa a ser uma ferramenta de posicionamento geopolítico e econômico.
Outro ponto relevante é a escala sistêmica. Em 2025, além das quase 1 milhão de patentes concedidas, houve milhões de registros de marcas e direitos autorais, além de proteção de variedades vegetais e indicações geográficas. Isso demonstra um ecossistema de propriedade intelectual completo, que abrange desde tecnologia de ponta até ativos intangíveis ligados à economia criativa e ao agronegócio.
Mas talvez o aspecto mais estratégico esteja na combinação entre registro e enforcement. A resolução de dezenas de milhares de casos administrativos e centenas de milhares de disputas judiciais sinaliza que não basta conceder direitos — é preciso torná-los efetivos. Sem enforcement, não há segurança jurídica; sem segurança jurídica, não há inovação sustentável.
O avanço da China no ranking do Índice Global de Inovação da Organização Mundial da Propriedade Intelectual, entrando pela primeira vez no top 10, reforça essa leitura: trata-se de um país que conseguiu alinhar política industrial, proteção jurídica e desenvolvimento tecnológico.
Além disso, o destaque para polos como Shenzhen-Hong Kong-Guangzhou evidencia um fenômeno importante: a inovação não acontece de forma isolada, mas em clusters altamente integrados, onde universidades, empresas e governo operam de forma coordenada.
Por fim, chama atenção o reforço dado aos direitos autorais como ativo estratégico, especialmente em setores digitais e audiovisuais. Isso indica uma ampliação do conceito de inovação, que passa a incluir também conteúdo, cultura e distribuição digital — áreas cada vez mais centrais na economia global.
Em síntese: o case chinês mostra que propriedade intelectual, quando tratada como política pública estruturante, deixa de ser apenas proteção e passa a ser instrumento de poder econômico, tecnológico e competitivo.
Fonte: Exame












