Do Vale do Jequitinhonha para o mundo: a força estratégica da Indicação Geográfica da Chapada de Minas
O reconhecimento da Chapada de Minas como Indicação Geográfica pelo INPI representa muito mais do que um selo de procedência para cafés especiais. O caso mostra como a propriedade intelectual vem sendo utilizada como ferramenta de transformação econômica, valorização territorial e reposicionamento de regiões produtoras no mercado global.
A IG reconhece oficialmente que as características dos cafés produzidos na região estão diretamente ligadas aos fatores naturais e humanos locais — combinação de solo, altitude, clima e conhecimento acumulado pelos produtores ao longo de décadas. O resultado é um produto com identidade própria, qualidade diferenciada e reputação construída coletivamente.
O aspecto mais interessante do caso é que a certificação ajuda a romper um estigma histórico associado ao Vale do Jequitinhonha, frequentemente lembrado por indicadores de vulnerabilidade social. A proteção conferida pelo INPI passa a reposicionar a região a partir de seus ativos intangíveis: tradição, autenticidade e excelência produtiva.
Os números ajudam a dimensionar esse impacto: são cerca de 5,8 mil produtores, 400 mil sacas anuais, 30 mil hectares plantados e aproximadamente 20 mil empregos gerados pela cafeicultura regional. Além disso, os cafés da Chapada vêm alcançando notas superiores a 80 pontos na metodologia da Specialty Coffee Association (SCA), padrão internacional utilizado para classificação de cafés especiais.
A construção da IG também evidencia um elemento central desse tipo de proteção: a governança coletiva. A criação do Instituto do Café da Chapada de Minas (ICCM), em 2018, foi decisiva para estruturar a organização dos produtores, estabelecer padrões de qualidade e fortalecer a identidade territorial da região. No ano seguinte, foi lançada a marca territorial “Chapada de Minas”, consolidando o movimento de valorização da origem.
Outro ponto relevante é o impacto da IG na internacionalização dos produtos brasileiros. A reportagem menciona que produtores já realizaram exportações diretas para mercados como a Austrália e participaram recentemente de rodadas de negócios no Canadá, nas quais certificações e pertencimento a regiões reconhecidas foram fatores determinantes para abertura de oportunidades comerciais.
Mais do que um instrumento jurídico, a Indicação Geográfica funciona como mecanismo de agregação de valor, diferenciação competitiva e preservação cultural. O caso da Chapada de Minas demonstra como a proteção da origem pode fortalecer pequenos produtores, ampliar acesso a mercados premium e transformar reputação regional em ativo econômico de longo prazo.
Fonte: G1












