Dez novas canetas depois, a guerra do Ozempic está só começando no Brasil

Adriana Brunner • 2 de setembro de 2026

O fim da proteção patentária da semaglutida no Brasil desencadeou uma das mais rápidas transformações recentes do mercado farmacêutico nacional.

Em apenas alguns meses, dez novos registros de medicamentos à base da molécula foram concedidos, inaugurando uma corrida que envolve grandes grupos farmacêuticos, novos fabricantes, estratégias de preço e, sobretudo, uma intensa disputa por um mercado que já movimenta R$ 14,6 bilhões por ano no segmento formal de medicamentos GLP-1.


Mas a multiplicação de registros revela uma questão particularmente relevante sob a perspectiva da Propriedade Intelectual: o término de uma patente não representa o fim da concorrência — representa, muitas vezes, o início dela.


Enquanto a patente garante ao seu titular um período de exclusividade para explorar economicamente determinada invenção, sua expiração permite que outros agentes ingressem no mercado, desde que cumpridos os requisitos regulatórios aplicáveis. Foi exatamente o que ocorreu com a semaglutida: encerrada a exclusividade patentária, laboratórios passaram a disputar espaço para desenvolver, registrar, fabricar e comercializar novas versões da molécula.


A consequência é uma verdadeira reconfiguração competitiva do mercado


A concorrência, contudo, não se limita mais à tecnologia originalmente protegida. A disputa passa a envolver capacidade produtiva, aprovação regulatória, preço, canais de distribuição, escala industrial, fidelização de pacientes e, naturalmente, marcas. A própria concentração de grande parte dos novos registros em poucos grupos farmacêuticos demonstra que a abertura decorrente da expiração da patente não elimina as barreiras competitivas: ela apenas desloca o foco da exclusividade tecnológica para outros ativos estratégicos.


E é justamente nesse momento que a marca assume importância ainda maior.


Durante o período de vigência da patente, o titular possui exclusividade sobre a exploração da invenção. Após sua expiração, entretanto, diferentes empresas podem ingressar no mercado com produtos baseados na tecnologia que se tornou acessível. A molécula deixa de ser exclusiva; a identidade empresarial e marcária, não.


Assim, em um cenário em que diferentes medicamentos podem compartilhar o mesmo princípio ativo, a marca passa a desempenhar uma função decisiva de diferenciação, identificação da origem empresarial e construção de reputação perante consumidores e profissionais de saúde.

A disputa que se inicia no Brasil demonstra, portanto, uma das dinâmicas mais importantes da Propriedade Intelectual: patentes e marcas protegem ativos distintos, mas frequentemente atuam em momentos sucessivos e complementares da estratégia competitiva de uma empresa.


A patente assegura exclusividade temporária sobre a inovação


A marca permite que a empresa construa e preserve sua identidade no mercado, inclusive quando a tecnologia que antes era exclusiva passa a ser acessível aos concorrentes.


O caso da semaglutida é particularmente emblemático porque evidencia que a expiração de uma patente não significa necessariamente a perda do valor econômico associado à inovação original. Ao contrário, ela inaugura uma nova fase, na qual empresas passam a competir pela preferência do mercado com base em novas tecnologias, capacidade industrial, preços, estratégias comerciais e ativos intangíveis.


E a corrida tende a se intensificar


Segundo a reportagem, embora já existam dez novos registros de versões sintéticas da semaglutida, a disputa ainda está longe de atingir seu ponto máximo. Novos produtos continuam em desenvolvimento e diferentes moléculas da classe dos medicamentos GLP-1 avançam globalmente, indicando que o mercado brasileiro poderá experimentar uma concorrência cada vez mais ampla nos próximos anos.


A grande lição é clara: a Propriedade Intelectual não termina quando uma patente expira.


Na realidade, é muitas vezes nesse momento que começa uma nova disputa — agora não mais pela exclusividade da invenção original, mas pela capacidade de transformar inovação, marca, tecnologia e estratégia empresarial em vantagem competitiva sustentável.


Fonte: Veja

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