Marca, futebol e identidade: quando o princípio da especialidade cede espaço à realidade do mercado

Adriana Brunner • 4 de fevereiro de 2026

A recente decisão da Justiça Federal da Bahia reacende um debate central no Direito Marcário: os limites do princípio da especialidade diante de marcas que extrapolam sua função econômica e passam a exercer forte papel simbólico, cultural e identitário.


No caso concreto, o Esporte Clube Bahia SAF ajuizou ação de nulidade de registro marcário cumulada com abstenção de uso em face da empresa BBMP Comércio de Vestuário Ltda., após constatar que esta havia obtido, junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), o registro da marca nominativa idêntica àquela já anteriormente registrada pelo clube.


Anterioridade e associação imediata como critérios decisivos


O Esporte Clube Bahia havia depositado e obtido o registro da marca “BBMP” em 2018, vinculando-a a atividades relacionadas à sua atuação esportiva, cultural e de entretenimento, na classe 41. Posteriormente, em 2021, a empresa ré obteve o registro da mesma expressão “BBMP”, na classe 35, para identificar o comércio de produtos como vestuário, acessórios e artigos diversos.


A defesa da BBMP Comércio de Vestuário Ltda. sustentou a regularidade do registro com base no princípio da especialidade, argumentando que a atuação em classes distintas afastaria qualquer risco de confusão ou associação indevida.


Contudo, a magistrada entendeu que a anterioridade do registro em favor do clube, aliada à forte associação do sinal distintivo com sua identidade institucional, inviabiliza a coexistência de marcas nominativas idênticas, ainda que destinadas a produtos e serviços formalmente distintos.


Relativização da especialidade e proteção da função social da marca


A sentença destacou que o princípio da especialidade não pode ser aplicado de forma mecânica, devendo ceder quando sua incidência compromete a função social da marca e a proteção do consumidor.


No entendimento do juízo, a expressão “BBMP” possui carga simbólica, histórica e cultural indissociável do Esporte Clube Bahia, sendo imediata e inevitável a associação pelo público. Nesse contexto, a exploração da marca pela empresa ré caracterizaria aproveitamento parasitário e risco concreto de confusão.


Conclusão


A decisão evidencia que marcas profundamente enraizadas no imaginário coletivo — ainda que não formalmente qualificadas como de alto renome — podem receber proteção ampliada quando a associação pelo público é direta, imediata e exclusiva.


Ao reconhecer o uso exclusivo da marca “BBMP” pelo Esporte Clube Bahia SAF e declarar a nulidade do registro concedido à BBMP Comércio de Vestuário Ltda., o Judiciário reafirma que a proteção marcária deve refletir a realidade do mercado, a boa-fé e a função social da marca.


Fonte: Consultor Jurídico

Inovação no Brasil: investir em tecnologia não basta — é preciso transformar conhecimento
Por Adriana Brunner • 21 de outubro de 2026
Brasil é 53º no Índice Global de Inovação 2026. Veja como a propriedade intelectual ajuda a transformar investimento em competitividade.
Violação de patente: STJ reconhece dano moral presumido
Por Adriana Brunner • 15 de outubro de 2026
STJ decide que violação de patente pode gerar danos morais sem prova de prejuízo à imagem. Entenda a decisão e seus impactos para titulares.
Copa do Mundo Feminina 2027: propriedade intelectual também entra em campo
Por Adriana Brunner • 14 de outubro de 2026
Copa do Mundo Feminina 2027: entenda como a Lei 15.421/2026 protege marcas e símbolos da FIFA e os riscos para empresas e patrocinadores.
GII 2026: o Brasil tem os ingredientes da inovação. Falta conectá-los.
Por Adriana Brunner • 13 de outubro de 2026
Brasil ocupa a 53ª posição no Global Innovation Index 2026 da OMPI. Entenda os avanços e o desafio de levar a inovação ao mercado.
TJ/SP mantém perfis de memes que utilizavam marca de universidade
Por Adriana Brunner • 6 de outubro de 2026
TJ/SP mantém perfis de humor que usam marca de universidade. Entenda o limite entre proteção marcária e liberdade de expressão nas redes.
Mercosul-EFTA: exportação e proteção dos ativos intangíveis
Por Adriana Brunner • 5 de outubro de 2026
Acordo Mercosul-EFTA entra em vigor em 1º de outubro. Entenda por que proteger marcas e patentes em cada território é essencial para exportar.
“FRUTARIA” é expressão de uso comum. Então qualquer concorrente pode usar?
Por Adriana Brunner • 30 de setembro de 2026
TJSP determina que ex-sócio retire "Frutaria" do nome de rede rival. Entenda os fundamentos da decisão sobre uso comum e concorrência.
TRF-2 anula marca XANTIMED por conflito com XANTINON
Por Adriana Brunner • 25 de setembro de 2026
TRF-2 anula marca XANTIMED por conflito com XANTINON. Entenda os fundamentos da decisão sobre colidência marcária.
TJSP: coexistência prolongada afasta urgência para retirada de marca
Por Adriana Brunner • 23 de setembro de 2026
TJSP revoga tutela de urgência em disputa marcária por ausência de urgência contemporânea. Entenda a decisão e seus fundamentos.
TJSP reforça proteção da marca mista como conjunto e afasta exclusividade sobre elemento nominativo
Por Adriana Brunner • 22 de setembro de 2026
TJSP decide que proteção de marca mista recai sobre o conjunto, não sobre palavra isolada. Entenda o caso envolvendo a Petronas.
Mais Posts