Fim da patente do Ozempic e a reabertura do debate sobre prorrogação de patentes no Brasil

Adriana Brunner • 29 de janeiro de 2026

A proximidade do término da patente da semaglutida no Brasil recoloca no centro do debate um tema sensível do sistema de propriedade industrial: os limites entre segurança jurídica ao titular da patente e o interesse público na ampliação do acesso a medicamentos. O caso ganhou contornos políticos com a intensificação de uma disputa de lobbies no Congresso Nacional, em paralelo às discussões já travadas no Judiciário.


De um lado, a titular da patente sustenta que atrasos excessivos na análise administrativa comprometeram o tempo efetivo de exploração do direito exclusivo, defendendo a necessidade de um mecanismo legal de compensação. De outro, farmacêuticas nacionais veem no fim da patente uma oportunidade legítima para entrada de genéricos e similares, com impacto direto na redução de preços e no fortalecimento da indústria local.



O pano de fundo dessa controvérsia é a decisão do STF que afastou a antiga regra de extensão automática do prazo das patentes, justamente por entender que ela gerava insegurança jurídica e efeitos anticoncorrenciais. A tentativa de recriar, por via legislativa, uma compensação por atrasos do INPI reabre a discussão sob outra roupagem, agora baseada na ideia de “atraso comprovado não imputável ao depositante”.


O debate extrapola o caso concreto. A eventual aprovação de uma regra geral de prorrogação pode afetar todo o sistema de patentes farmacêuticas, com reflexos diretos sobre políticas de saúde pública, previsibilidade regulatória e estratégias de inovação. Ao mesmo tempo, pressiona o Estado a enfrentar, de forma estrutural, o problema crônico da morosidade na análise de pedidos, sob pena de transferir esse custo à sociedade.


Mais do que uma disputa entre empresas, o caso evidencia a tensão permanente entre exclusividade, concorrência e acesso, e mostra como decisões técnicas em propriedade industrial podem se transformar rapidamente em temas centrais da agenda legislativa.


Fonte: OESTADO

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