Gradiente: muito além do “iPhone brasileiro”, um símbolo da indústria nacional

Adriana Brunner • 31 de julho de 2025

A disputa judicial entre a Gradiente e a Apple pelo uso da marca “iPhone” no Brasil pode ter terminado em 2023, mas o caso ficou marcado como um lembrete da força — e da fragilidade — da indústria brasileira de tecnologia. Mais do que uma batalha de nomes, foi um confronto entre uma marca que um dia simbolizou inovação nacional e uma gigante global.


Um império da era analógica


Fundada nos anos 1960, a Gradiente foi uma das protagonistas da chamada “era de ouro” da eletrônica brasileira. Nos anos 70 e 80, dominou o mercado com aparelhos de som, televisores, videocassetes e parcerias estratégicas. Aproveitando o cenário de reserva de mercado e os incentivos da Zona Franca de Manaus, consolidou-se como uma das marcas mais reconhecidas do país.


A aquisição de marcas concorrentes, como Polyvox e Telefunken, e a expansão para mercados internacionais mostraram a ousadia de uma empresa que parecia não ter limites. A Gradiente era, à época, sinônimo de tecnologia de ponta no Brasil.


Crise, reinvenção e disputa de marca


Com a abertura econômica e a entrada massiva de produtos estrangeiros nos anos 1990, a Gradiente enfrentou dificuldades. Apesar de tentativas de reinvenção — incluindo uma ousada entrada no mercado de games com a Nintendo e, mais tarde, no de celulares — a empresa não resistiu à concorrência global e à própria instabilidade interna.


Foi nesse contexto que surgiu o episódio que a colocou no radar internacional: a disputa pelo nome “iPhone”. A Gradiente registrou a marca no INPI em 2000, muito antes da Apple lançar o iPhone nos Estados Unidos. No entanto, o uso comercial só veio anos depois, abrindo espaço para uma disputa que se arrastou até o STF. Em 2023, a Corte decidiu contra a Gradiente, encerrando oficialmente o impasse.


Mais do que a perda de uma marca, a decisão foi simbólica: mostrou os limites da proteção marcária sem uso efetivo e constante — e a importância estratégica de uma gestão ativa de portfólio de marcas.


A marca sobrevive


Apesar de ter encerrado sua recuperação judicial, a Gradiente não desapareceu. Ao contrário: reinventou seu modelo de negócios. Investiu no setor de energia solar, alugou seus galpões industriais na Zona Franca e licenciou sua marca para a produção de eletroportáteis, gerando receita via royalties.


Hoje, a Gradiente sobrevive como marca — não mais como fabricante — e busca reposicionar-se em um novo mercado. Um exemplo do seu potencial de reinvenção a partir da própria identidade da marca e do papel das marcas como ativos intangíveis valiosos no reposicionamento estratégico.


A Gradiente pode ter perdido a batalha do nome “iPhone”, mas segue viva — como memória, como aprendizado e como ativo. Um lembrete de que marcas bem construídas resistem, mesmo quando tudo ao redor muda.


Fonte: Exame

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