STJ mantém condenação da FIFA por violação de boa-fé pré-contratual em disputa sobre spray de barreira

Adriana Brunner • 29 de abril de 2025

A recente decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) no caso envolvendo a FIFA e a empresa brasileira Spuni Comércio de Produtos Esportivos e Marketing Ltda reforça um importante precedente para o direito contratual e de propriedade intelectual no Brasil: a responsabilidade pela quebra da boa-fé objetiva durante tratativas negociais, mesmo sem a assinatura formal de contrato.


O caso



A disputa gira em torno do "spray de barreira" — produto evanescente usado para marcar a distância regulamentar em cobranças de falta no futebol. A Spuni, empresa brasileira, alega ser a desenvolvedora do produto e que, após tratativas frustradas com a FIFA, a entidade máxima do futebol passou a utilizar o spray em competições internacionais sem a devida formalização de contrato ou pagamento de licenciamento.


O STJ, em decisões anteriores, já havia reconhecido que a FIFA violou o princípio da boa-fé objetiva ao negociar com a Spuni e, posteriormente, se apropriar da tecnologia desenvolvida pela empresa. A atuação da FIFA foi considerada abusiva, comprometendo a confiança legítima depositada pela empresa brasileira e causando prejuízos à sua atuação no mercado.


Agora, o STJ negou seguimento a mais um recurso da FIFA, que buscava levar a discussão ao Supremo Tribunal Federal (STF) sob a alegação de violação de preceitos constitucionais. Segundo o ministro Luis Felipe Salomão, vice-presidente do STJ, não há matéria constitucional direta a ser discutida, consolidando assim o entendimento da Corte.


Análise: a força da boa-fé pré-contratual


A decisão reforça a importância da boa-fé não apenas na execução dos contratos, mas também na fase pré-contratual. Mesmo antes da assinatura de um instrumento formal, as partes têm o dever de agir com lealdade, transparência e respeito à confiança legítima criada nas tratativas.


Quando uma parte se aproveita da relação de negociação para extrair informações, técnicas ou produtos e depois utiliza essas vantagens de forma autônoma, sem formalizar contrato ou compensar a outra parte, ocorre a violação da boa-fé objetiva — como reconhecido pelo STJ no caso.


Esse precedente fortalece a proteção de inventores, startups e pequenas empresas que, muitas vezes, se veem obrigadas a expor seus projetos a grandes organizações durante negociações comerciais. A decisão sinaliza que a ausência de contrato formal não isenta a parte que age de forma desleal de responsabilidade jurídica.


Reflexos para a propriedade intelectual e inovação


Embora a disputa envolva também alegações de violação de patente, o principal foco do julgamento foi a quebra da boa-fé nas negociações. Isso amplia o entendimento sobre a proteção dos criadores no Brasil, demonstrando que a confiança nas relações de mercado também é juridicamente tutelada.


Para empresas inovadoras, o caso enfatiza a necessidade de cuidados adicionais, como a formalização de acordos de confidencialidade (NDAs) antes de iniciar negociações, registro adequado de propriedade intelectual e documentação de todas as tratativas.


Conclusão


A decisão do STJ contra a FIFA não apenas reconhece a violação dos direitos da Spuni, como também reforça princípios fundamentais que regem a boa-fé e a proteção da inovação no ambiente de negócios. Trata-se de uma vitória importante para a segurança jurídica de empreendedores e inventores brasileiros diante de grandes organizações globais.


A jurisprudência avança, mostrando que, no Brasil, confiança e inovação devem caminhar lado a lado — e que o descumprimento da boa-fé pré-contratual gera, sim, consequências jurídicas sérias.



Fonte: O Globo

Serra da Mantiqueira fortalece sua reputação: cafés do Circuito das Águas conquistam Indicação Geogr
Por Adriana Brunner 29 de maio de 2026
O reconhecimento concedido pelo INPI aos cafés do Circuito das Águas representa mais do que um selo de origem...
INPI divulga rankings de depositantes de ativos de PI em 2025: um retrato da competitividade brasile
Por Adriana Brunner 28 de maio de 2026
O INPI divulgou os rankings de maiores depositantes de ativos de propriedade intelectual em 2025...
Golpes envolvendo registro de marcas crescem junto com a busca por proteção no INPI
Por Adriana Brunner 25 de maio de 2026
O aumento no número de pedidos de registro de marcas no Brasil trouxe um efeito colateral preocupante: o crescimento de golpes envolvendo falsas comunicações sobre processos no INPI.
Patente que demora perde valor: o custo invisível do backlog do INPI para a inovação brasileira
Por Adriana Brunner 22 de maio de 2026
O caso do medicamento Vonau Flash expõe um dos maiores entraves estruturais da inovação no Brasil: a demora na análise de patentes.
Propriedade intelectual e saúde: proteger inovação também é proteger o futuro do acesso a tratamento
Por Adriana Brunner 21 de maio de 2026
Existe uma percepção recorrente de que propriedade intelectual e acesso à saúde caminham em lados opostos. Mas a discussão real é mais complexa.
Patentes: por que proteger a inovação se tornou essencial para a economia moderna
Por Adriana Brunner 20 de maio de 2026
Patentes existem há mais de 600 anos — e continuam no centro das disputas sobre inovação, tecnologia e desenvolvimento econômico.
30 anos da Lei de Propriedade Industrial: o Brasil entendeu o valor da inovação
Por Adriana Brunner 19 de maio de 2026
Quando a Lei nº 9.279 foi sancionada em 1996, o país deixava para trás um modelo fechado e pouco alinhado às regras internacionais de inovação. Três décadas depois, o cenário mudou
Couro de peixe e Indicação Geográfica: quando tradição, sustentabilidade e inovação geram valor
Por Adriana Brunner 18 de maio de 2026
A concessão de Indicação Geográfica ao couro de peixe produzido em Pontal do Paraná mostra como a propriedade intelectual pode atuar como ferramenta concreta de desenvolvimento regional.
Inovação não é ideia: é capacidade de transformar conhecimento em valor
Por Adriana Brunner 15 de maio de 2026
Os números de depósitos de patentes no Brasil revelam um paradoxo relevante: o país produz conhecimento técnico e científico em escala significativa...
Indicações Geográficas impulsionam exportações e fortalecem o turismo rural
Por Adriana Brunner 14 de maio de 2026
As Indicações Geográficas vêm deixando de ser apenas um selo de reconhecimento territorial para se consolidarem como verdadeiras ferramentas de desenvolvimento econômico.
Mais Posts